domingo, 10 de junho de 2012

Número de mortes

   O número de mortes na Cidade Bunda preocupa as autoridades competentes. Pesquisa indica que num total de 100% de mortes:

  •  25% - acidentes de trânsito;
  •  13% - problemas cardíacos;
  •  7% - causas naturais;
  •  21% - homicídios;
  •  34% - suicídios.

Um dado curioso é o de que o número de homicidas supera em 17% o número de homicídios. As autoridades competentes se dizem surpresos com o resultado da pesquisa. Outro dado apurado é o de que num total de 100% de suicídios:

  • 85% - suicídios altruistas* 
  • 14,9% - suicídios egoistas**
  • 0,1%  - suicídios filosóficos***
Resultado este que, segundo as autoridades competentes, mostra como os cidadãos e cidadãs de Bunda possuem em alto grau o nível de empatia com o próximo e um bom coração.


* Suicídio cometido com intenção de livrar parentes e/ou amigos e/ou sociedade de um peso inútil.
** Suicídio cometido com a única intenção de acabar com o sofrimento do suicida.
*** Suicídio cometido com intenções filosóficas.

Menino Agenor

          Seu nome é Agenor e ele tem 15 anos. Foi denunciado por ter espancado um colega de escola. O garoto espancado foi levado ao hospital e passa bem. Agenor, quando indagado sobre o porque da agressão, respondeu que não sabia. Quando indagado novamente respondeu que havia uma rusga entre ele e o espancado, mas o motivo dessa rusga não foi totalmente explicado. Pela 3ª vez Agenor foi indagado e, como nova resposta, disse que cometeu a agressão pois momentos antes do ocorrido se encontrava em um estado alterado de espírito; sentia muita raiva. Quando indagado sobre os motivos que o levaram a escolher a vítima, Agenor respondeu que não sabia. Foi novamente indagado e então disse que o garoto espancado era mais fraco que ele (Agenor) e que frequentemente a vítima sofria com iguais atitudes por parte de outros estudantes daquela escola. Quando indagado se sentia algum tipo de culpa, o agressor respondeu que se sentia culpado e arrependido. Agenor vai cumprir medida sócio-educativa prestando serviços comunitários.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Conto I (No café)

        Trabalhava há muito tempo. Agências, entrevistas, testes, demissões. Pouco dinheiro, cansaço, tristeza. Se sentia esmagado pelo mundo, compensava consumindo seu dinheiro em ninharias que faziam aumentar a tristeza no final do mês. Esperava o fim da tarde, da semana, o feriado, as férias. Estava de saco cheio.
       - Uma manhã indo ao trabalho, resolveu se dar uma xícara de café no lanche da esquina. 
estava cheio. Sentou no balcão e pediu um café preto. 
     Ao seu lado havia um grupo de homens grisalhos discutindo animadamente. O assunto era a falta de qualificação da construção civil, o apoio do governo, a vagabundagem da nova geração e a natureza humana preguiçosa que gerava tragédias como o prédio que desmoronou ontem matando até agora 11 pessoas. Nunca houve uma geração mais trabalhadora que a nossa, esses aí não querem nada da vida. 
     Numa mesa no canto um casal jovem esbanjava e provava salgados e doces, refrigerante e risadas de quem foi demitido e ganhou uma bolada. Merda! Um cara conversava com o velho dono do bar sobre os reparos que fez na casa. Devagarinho seu fulano, mas caminhando hehe. O carro tá bom agora, voltou do mecânico, tá tinindo. Ééé, agora tenho uns diazinhos de folga vou aproveitar pra botar tudo em dia seu fulano.      
      Um grupinho de adolescentes numa mesa atrás cochichava e ria antes da aula. Outro desses mais ao fundo comia despreocupadamente e conversava banalidades. Vários casais jovens com pastas de currículos comendo pastel fechavam a cena.
    Já se passaram quatro dias desta manhã, nosso herói vai todos os dias no café e lá fica.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Benvenuto

   Estreitos são os caminhos que sobram para nós nesse pedaço de terra e é justamente essa estreiteza que combatemos.
   Todo o lixo bem recolhido das ruas e de nossas cabeças devem aparecer na nossa cara como uma espinha que indica adolescência ou algum problema cutâneo qualquer.
   Chega de selos e insígnias, diplomas e alvarás, que nos habilitem a viver de forma plena aqui nesta cidade.
   Quem disse que essa cidade é empreendedora? Isso só é verdade se o número de patrões for maior do que o número de empregados e isso não é verdade.

Eu não sei empreender!

Eu não sei plantar uva!

Eu não sei fazer vinho!

Eu não sei fazer queijo!

   Queremos aproveitar as ruas da nossa cidade e todos os lugares que ficam nessas ruas mas não nos é permitido pois só nos resta o domingo e no domingo nós não vamos trabalhar. Queremos mais referências do que aqueles nomes de gravata palestrando para nossos patrões. Queremos ter a escolha de não sermos patrões nem empregados.

Eu não sou pró-ativo!

Eu não tenho MBA!

Eu não sei o que é MBA!

Eu não quero curso técnico!

   Queremos que os moradores de grandes edifícios não fechem as grades quando estivermos passando pela frente desses edifícios. Queremos respeito mesmo que nossos sobrenomes não tenham origem italiana. Quem disse que precisamos de condescendência? Quem disse que precisamos de pena cristã ou qualquer tipo de pena? Quem disse que precisamos de cristo, caravaggio, capelinha, frei?

Não ao catolicismo!

Não ao frei jaime!

Não ao uso de grades!

Não ao medo de mim!

   Queremos gritar sem pertencer a nenhuma categoria. Precisamos gritar na frente do espelho mas o espelho que nos oferecem não mostra nosso reflexo. Queremos encontrar nosso reflexo, nosso deus, nossa cultura real. Queremos um centro longe do centro. Longe do Juvenil e da catedral. Não queremos uma linha de produção de diplomas. Nossa curiosidade vai além do pólo metalmecânico. Não queremos erudição das academias burguesas.

Não ao lixo industrial!

Não ao lixo acadêmico!

Não ao lixo moral!

Não ao lixo cultural!